O Supremo Tribunal Federal vive, neste início de setembro de 2026, uma das crises internas mais delicadas de sua história recente. O que começou como uma investigação sobre o colapso do Banco Master se transformou em um confronto público entre dois Ministros da Corte, alcançou a Advocacia Geral da União e a Polícia Federal, e hoje coloca o próprio Presidente do STF na posição de árbitro de um conflito sem precedentes entre seus pares. Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar ao início.
Tudo começa com o caso Master. O Banco Master, cujo ex controlador é o empresário Daniel Vorcaro, está no centro de uma investigação conduzida pelo STF. Quando o Ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso, o Presidente da Corte, Ministro Edson Fachin, indicou o Ministro André Mendonça para assumir o processo. A partir daí, Mendonça passou a comandar as apurações, incluindo o pedido de relatórios à Polícia Federal.
Foi um desses relatórios que deu início à crise atual. A pedido de Mendonça, a Polícia Federal produziu um documento que identificou o Ministro Alexandre de Moraes como interlocutor do empresário Daniel Vorcaro, com mensagens e contatos entre os dois. Na terça feira, dia 1º de setembro, Mendonça decidiu retirar o sigilo desse relatório, tornando pública a existência dessas conversas. O conteúdo indica que Vorcaro teria pedido a Moraes proteção junto ao Procurador Geral da República, Paulo Gonet, e ao Diretor Geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
A reação de Moraes foi imediata e dura. Segundo relatos, os dois Ministros chegaram a ter uma discussão pessoal acalorada, que teria quase resultado em confronto físico, depois que Moraes questionou Mendonça sobre o aprofundamento das apurações que expuseram sua identidade nas mensagens de Vorcaro.
No campo institucional, Moraes decidiu contra-atacar. Na quinta feira, dia 3 de setembro, ele encaminhou ao Presidente Fachin um pedido formal de investigação contra Mendonça, apontando fortes indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento a determinados grupos políticos no exercício da relatoria dos casos Master e INSS. Moraes também pediu que Mendonça seja incluído no chamado Inquérito das Fake News, acusando o colega de ter usurpado a direção das investigações das autoridades policiais, de ter conduzido de forma irregular as tratativas de uma eventual colaboração premiada e de ter direcionado alvos de investigação, entre eles o próprio Moraes e o Senador Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos.
Mendonça não ficou em silêncio. Em resposta às acusações, ele pediu ao Presidente Fachin que avaliasse o afastamento de Moraes da relatoria, elevando a disputa a um novo patamar. O que era tratado como uma divisão interna do Supremo se transformou em um confronto institucional explícito, com um Ministro pedindo a investigação do outro e o outro pedindo o afastamento do primeiro.
A Procuradoria Geral da República também entrou no debate. O Procurador Geral, Paulo Gonet, sustenta que a investigação conduzida pela Polícia Federal a pedido de Mendonça seria nula, argumentando que o Ministro teria agido como uma espécie de juiz de instrução ao investigar de forma irregular um colega de Corte.
Diante da escalada, o Presidente Fachin decidiu agir como árbitro do conflito. Ele abriu um procedimento próprio e deu um prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o Procurador Geral Paulo Gonet e o Diretor Geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos sobre os fatos que provocaram a crise. Fachin busca entender as circunstâncias da investigação e verificar se houve irregularidades na obtenção, no acesso e na divulgação de informações protegidas. A decisão, por ora, não representa uma conclusão sobre a responsabilidade de nenhum dos envolvidos.
Internamente, o Supremo está dividido. Segundo apurações, existe uma ala do tribunal que defende a anulação dos atos praticados por Mendonça na condução do caso, enquanto outra ala defende que Moraes seja de fato investigado. O único apoio garantido ao Ministro Fachin no plenário, até o momento, seria o do Ministro Luiz Fux. Outros nomes citados nas discussões internas incluem o Ministro Kássio Nunes Marques e a própria Ministra Carmen Lúcia, apontada como o voto mais incerto nessa disputa. O Ministro Dias Toffoli está impedido de participar da discussão, já que se afastou anteriormente do caso Master.
Paralelamente a esse embate entre Moraes e Mendonça, existe uma segunda frente de conflito, entre a Advocacia Geral da União e a Polícia Federal. A cúpula da Polícia Federal acusa a Advocacia Geral da União de ter sido omissa na crise institucional envolvendo Mendonça. O atrito remonta a um pedido da Polícia Federal para que a Advocacia Geral da União atuasse no Supremo com o objetivo de reduzir o controle de Dias Toffoli sobre inquéritos sob sua relatoria, pedido que a Advocacia Geral da União rejeitou.
Relatórios da própria Polícia Federal, divulgados no dia 3 de setembro e usados por Moraes para embasar suas críticas a Mendonça, revelam um detalhe delicado sobre essa relação. Segundo esses documentos, a Advocacia Geral da União, comandada pelo Advogado Geral da União, Jorge Messias, teria evitado acionar o Supremo contra Mendonça para preservar uma relação política entre os dois. Entre os elementos citados pela Polícia Federal estão gestos públicos de apoio dados por Mendonça à indicação de Messias para uma vaga no Supremo, indicação que acabou sendo rejeitada, além do que os relatórios chamam de matriz religiosa comum entre ambos, já que Messias e Mendonça são evangélicos.
A Advocacia Geral da União rebate a acusação de omissão. O órgão afirma que sua postura de não recorrer contra Mendonça evitou, na verdade, a anulação das investigações sobre o Banco Master, e que a decisão teria fundamento técnico e estratégico, não pessoal.
O caso também já produziu reflexos na política nacional. O Presidente Lula publicou um vídeo nas redes sociais buscando se distanciar publicamente da imagem de Moraes, depois de conversas reservadas com Fachin e com o Ministro Gilmar Mendes. O movimento é lido como uma tentativa do Palácio do Planalto de se resguardar dos desdobramentos da crise. Analistas políticos também já apontam que o tema do impeachment de Ministros do Supremo, historicamente uma bandeira defendida pela oposição ao governo, deve ganhar força na Câmara e no Senado a partir de agora.
Em resumo, a crise que atinge o STF neste momento tem três camadas que se entrelaçam. A primeira é pessoal, o embate direto entre os Ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça em torno da condução do caso Master. A segunda é institucional, a divisão do próprio Supremo sobre quem deveria ser investigado, com o Presidente Edson Fachin tentando administrar o conflito sem romper a unidade da Corte. A terceira é político administrativa, o atrito entre a Polícia Federal, comandada por Andrei Rodrigues, e a Advocacia Geral da União, comandada por Jorge Messias, sobre a atuação do órgão jurídico da União diante das investigações envolvendo Mendonça.
O desfecho ainda está em aberto. Tudo depende agora das explicações que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues devem apresentar a Fachin dentro do prazo estipulado, e da forma como o plenário do Supremo decidirá lidar com uma situação até então inédita na história da Corte: a possibilidade real de um Ministro investigar formalmente outro Ministro em pleno exercício do cargo.

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