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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026
Criptografia Do Abuso

Especial

Criptografia Do Abuso

Uma reportagem sobre abuso sexual infantil no Brasil: o caso que expôs uma rede de predadores, os dados oficiais por trás da denúncia, e as vozes que ajudam a decifrar o que fica em silêncio.

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Atenção: este texto aborda abuso sexual infantil e pode gerar gatilhos.

Teseu [nome fictício], ainda criança, foi vítima de estupro, e o abusador era seu padrasto. O caso só chegou ao conhecimento das autoridades treze anos depois, em 2021, já na maioridade, quando Teseu, incentivado por um amigo, reuniu forças para ir a uma delegacia e fazer a denúncia.

Um ano após a denúncia, o padrasto foi convocado para prestar depoimento, porém, por decorrência de um AVC, foi internado e morreu sem prestar esclarecimentos à Justiça sobre as denúncias de abuso sexual.

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Com o sentimento de injustiça e inspirado pelo filme “Som da Liberdade” (Sound of Freedom), que retrata a luta contra o tráfico infantil e a exploração sexual de menores através de um agente disfarçado, Teseu se pergunta o porquê de não fazer o mesmo.

De vítima, decide agir para proteger outras crianças. Passa a monitorar aplicativos de relacionamento e conversas em grupos virtuais, descobrindo as maneiras que estes predadores se comunicam na internet através de símbolos.

Foi desta forma que seu caminho se cruzou com o de Mauro [nome fictício]. Utilizando os símbolos, Mauro inicia uma conversa com Teseu e informa a ele que este tem um afilhado de dois anos de idade, perguntando se Teseu não estaria interessado em dopar, torturar e violentar a criança enquanto ele assiste.

Teseu, então, havia dito que aceitava a oferta. O que Mauro não sabia era que Teseu havia informado a polícia.

Durante o encontro, Mauro foi preso e a criança, resgatada. A mãe do menor foi convocada para prestar esclarecimentos na delegacia e também foi presa por fornecer imagens íntimas de seu filho.

Diante da gravidade das condutas, os dois foram denunciados pelos artigos 240, 241-A e 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — crimes que passaram a tramitar sob regras mais rígidas com a Lei Henry Borel (Lei 14.344/22). Hoje, ambos estão presos e respondem como réus no processo.

Para o criminalista e professor de direito Carlos Kauffmann, ainda que obtidas por um cidadão, e não por órgão oficial, toda e qualquer prova, desde que seja considerada lícita, tem validade e pode ser utilizada em qualquer fase da investigação ou do processo. O fato de se passar por outra pessoa deve ser levado em conta nesta análise. Se essa conduta fosse utilizada como o único meio de induzir o autor do fato a praticar o crime para obter a prova, haveria ilicitude, o que inviabilizaria sua utilização. 

Contudo, segundo o especialista, a conduta apontada teria se aperfeiçoado independentemente do codinome utilizado, servindo muito mais para preservar a identidade do investigador do que como meio exclusivo de obtenção das provas, que acabam por ser válidas diante do histórico apresentado.

A preservação da identidade, aliás, foi uma premissa adotada por toda a apuração desta reportagem: por uma questão de segurança, o nome de Teseu foi mantido em anonimato tanto para os leitores quanto para os próprios especialistas ouvidos ao longo da investigação, resguardando sua integridade diante da exposição gerada pelo caso.

Historicamente, a violência doméstica praticada contra crianças e adolescentes sofria de uma grave omissão estrutural no ordenamento jurídico brasileiro. Enquanto a Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006) confere tutela protetiva e cautelar às mulheres, as agressões infantis no ambiente familiar ficavam circunscritas às disposições genéricas do Código Penal e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sendo que tais mecanismos muitas vezes se mostravam lentos e insuficientes para estancar a violência iminente ao menor.

A tragédia do menino Henry Borel acabou por trazer à tona tal questão, e, com isso, chamar a atenção do legislativo. Do ponto de vista técnico-criminal, a Lei 14.344/2022 veio a reconhecer que o lar, que deveria ser o ambiente de maior segurança da criança, muitas vezes se torna o local de maior vulnerabilidade.

Assim, a Lei Henry Borel representa uma das mais significativas alterações na dogmática penal e processual penal brasileira recente, com foco na proteção destes hipervulneráveis.

O criminalista Carlos Kauffmann aponta que "a Lei Henry Borel não aumentou nem alterou os crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente. Trata-se de Lei que, acima de tudo, estabeleceu mecanismos de proteção, controle e assistência às crianças e adolescentes, tais como a adoção de medida protetiva de urgência daqueles que se encontrem em situação de violência doméstica e familiar, inclusive com a determinação de que o agressor seja compulsoriamente afastado do local de convivência com a vítima, inclusive sua própria residência. O aumento de pena, por esta Lei, se deu apenas no caso de homicídio contra menor de 14 anos."

Essa mudança extinguiu a incidência de benefícios judiciais mais brandos e vedou a concessão de anistia, graça e indulto, exigindo o cumprimento de frações de pena substancialmente maiores para fins de progressão de regime.

Ainda, o magistrado ou a autoridade policial passou a ter respaldo legal direto para impor o afastamento cautelar do investigado do domicílio comum, estipular limites de aproximação e suspender o porte ou posse de arma de fogo, pois a lei trouxe a sistemática de medidas cautelares com tramitação prioritária.

Estabeleceu-se, também, a responsabilização criminal para profissionais de saúde, educação e conselheiros tutelares que, cientes de indícios de violência contra vulneráveis, deixarem de notificar formalmente às autoridades policiais ou ao Ministério Público. Com isso, a lei inova ao criar um novo tipo penal que criminaliza a omissão.

"Não fui eu quem fui até ele, foi ele quem veio até mim." Frase dita por Teseu durante a audiência. 

Da fala de Teseu à decisão do juiz, a gravidade dos fatos levou o Judiciário a agir com rigor.

A defesa dos acusados chegou a pedir a revogação da prisão preventiva, alegando excesso de prazo — pedido categoricamente indeferido pelo juiz, que destacou em sua decisão que crimes dessa natureza "abalam e subvertem a harmonia da sociedade, submetendo os cidadãos trabalhadores a um constante ambiente de medo e insegurança".

“Foi a partir dessa dor que Teseu conseguiu se organizar para minorar o sofrimento de outras crianças”, acredita a psicóloga e psicanalista Maíra Rangel de Medina, pelo ponto de vista da psicanálise, a partir do fato de Teseu ter transformado sua própria história de abuso em uma busca ativa por identificar outros agressores.

A exposição enfrentada por Teseu nas redes sociais escancara uma realidade complexa que muitas vezes esbarra na própria imprecisão com que o assunto é tratado no debate público.

Muito se fala sobre o “ciclo de violência”, ou seja, a ideia de que quem sofreu abuso sexual teria mais chance de se tornar abusador. Para Maíra Rangel de Medina, não tem como cravar, pois há várias possibilidades que dependem da estrutura psíquica da pessoa.

“O abuso pode gerar revolta e descrença, mas normalmente quando a criança faz um processo para cuidar dessa dor, pode ressignificar de outras formas.”

A especialista ainda explica que não tratado o abuso, existe a possibilidade de “descontar”.

Cada caso é um caso, e assim foi com Teseu: de vítima à um caçador de pedófilos. A psicanalista e educadora sexual Darlene Barbosa, é direta:

“Cada pessoa reage a uma experiência de violência de uma maneira. Algumas procuram esquecer, outras falam sobre o assunto, outras se tornam ativistas ou passam a trabalhar com prevenção. Em alguns sobreviventes, transformar uma experiência dolorosa em uma atitude de proteção pode trazer um sentido para aquilo que aconteceu. Mas não podemos dizer que isso acontecerá com todas as vítimas.”

No cotidiano, o termo "pedofilia" é frequentemente utilizado de forma genérica como sinônimo automático de abuso ou de qualquer relação envolvendo menores. Contudo, tecnicamente, a pedofilia não é crime por si só: sentir atração por crianças é classificado pela medicina e pela psicologia como um transtorno inserido no grupo das parafilias — padrões de excitação sexual atípicos em relação às normas sociais —, enquanto a prática delituosa é o que configura o crime.

“Existem tratamentos e estratégias de prevenção destinados a pessoas que apresentam atração sexual por crianças, principalmente com o objetivo de ajudar a pessoa a não transformar essa atração em comportamento abusivo. Eu prefiro falar em tratamento, acompanhamento e prevenção, e não simplesmente em "cura". Do ponto de vista da proteção infantil, o mais importante é trabalhar para que nenhuma criança seja colocada em situação de violência.”, explica Darlene Barbosa.

A palavra “pedofilia” tem origem no grego antigo, a partir dos termos paîs/paidós ("criança") e philia ("amizade", "afeição" ou "amor"), significando etimologicamente "afeição por crianças", um conceito que na Antiguidade não possuía conotação sexual.

Com o passar do tempo, o campo científico restringiu o termo à sexualidade, destacando que, embora nem todas as parafilias envolvam danos a terceiros, a pedofilia é considerada uma das mais graves justamente por atingir indivíduos sem capacidade legal ou psicológica de consentir.

Darlene Barbosa alerta:

“Pedofilia e abuso sexual infantil são questões diferentes e é importante não misturá-las. Uma coisa é uma atração ou interesse sexual. Outra é praticar um ato sexual contra uma criança. O abuso é uma violência contra uma pessoa que está em desenvolvimento e precisa ser protegido. Essa diferenciação também é importante para a prevenção, porque permite falar sobre o problema antes que uma criança seja vítima.”

A nossa investigação reuniu dezenas de capturas de tela ao longo de meses de monitoramento, revelando um sistema recorrente de sinais usados para driblar a moderação das plataformas. O Portal Futuro Livre optou por não publicar o significado de cada código: mostrar o padrão já comprova sua existência sistemática, e decodificá-lo publicamente correria o risco de funcionar como instrução para quem procura esse conteúdo — o oposto do que esta reportagem pretende combater. O material coletado foi encaminhado à SaferNet Brasil, organização especializada no combate a crimes digitais contra crianças e adolescentes.

Para Adriano Bernardi, advogado especialista em Direito Digital, as mudanças recentes na responsabilização das plataformas ampliaram o dever de atuação das empresas. 

“As plataformas passaram a ter o dever de monitorar o conteúdo gerado por seus usuários, adotar mecanismos mais eficientes de moderação e possuir canais acessíveis de denúncia.”

Adriano Bernardi reforça que é importante lembrar sempre que a liberdade de expressão é uma garantia constitucional, sendo assim deve ser respeitada, porém ela não possui um caráter absoluto, ela deve respeitar a integridade física e moral das pessoas, a proteção à infância e juventude e a proibição de práticas ilícitas. 

“A liberdade de expressão tem como limite a própria conduta ilícita, ou seja o cometimento de crime. Publicações que se enquadrem em crimes não podem se utilizar da liberdade de expressão com escudo protetor contra a responsabilização pelo ato ilícito cometido.”

A SaferNet Brasil é uma organização não-governamental que atua desde 2005 no combate a crimes cibernéticos, com foco especial em violência sexual contra crianças e adolescentes na internet. 

A entidade opera em parceria com o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e grandes plataformas digitais, recebendo denúncias por meio do canal denuncie.org.br e encaminhando os casos identificados para investigação e remoção de conteúdo. 

Diante do volume de evidências reunidas ao longo da apuração, o Portal Futuro Livre formalizou uma denúncia junto à SaferNet, entregando à organização o material coletado para que passe por análise técnica e, se for o caso, seja direcionado às autoridades competentes.

A responsabilidade das plataformas digitais pode ser ainda maior quando a própria plataforma contribui para a circulação do material. Segundo Adriano Bernardi, se a plataforma impulsiona, monetiza ou falha gravemente em conter a propagação massiva e viral de conteúdos notoriamente criminosos, ela responde civilmente, independentemente da existência de notificação prévia.

Essa expansão dos crimes para o ambiente virtual dialoga diretamente com o volume alarmante de casos que chegam aos canais oficiais do país.

Criado em 2003, o Disque 100 funciona 24 horas por dia como um serviço público voltado para o recebimento de denúncias de violações de direitos humanos, sendo o principal termômetro para os abusos sexuais infantis.

Com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), o Portal Futuro Livre levantou os registros oficiais de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes entre os anos de 2011 e 2024, período em que foram contabilizadas impressionantes 586.562 denúncias.

A análise temporal revela uma curva acentuada: o ano de 2011 registrou 18.751 denúncias, número que saltou para 72.664 em 2012 — um crescimento de 287,5% que coincide temporalmente com a popularização em massa dos smartphones no Brasil, impulsionada por um aumento de 179% nas vendas de celulares em 2011, segundo uma pesquisa da Nielsen.

Embora estabelecer uma correlação direta exija cautela estatística, o fenômeno marcou o momento em que a internet móvel passou a plastificar o cotidiano e a expor menores a novos vetores de aliciamento.

Os números mantiveram-se em patamares elevados na última década, culminando em altas recentes que registraram 44.722 casos em 2022, 61.983 em 2023 e atingiram o pico de 84.521 denúncias em 2024.

Ano

Denúncias

2011

18.751

2012

72.664

2013

62.694

2014

45.207

2015

32.620

2016

26.114

2017

32.128

2018

26.454

2019

28.159

2020

20.590

2021

29.955

2022

44.722

2023

61.983

2024

84.521

Esses dados estatísticos refletem o sentimento de uma sociedade acuada e descrente nas instituições formais. Para entender como esse tema ressoa mais de perto, o Portal Futuro Livre também ouviu sua própria base de leitores e internautas: uma sondagem qualitativa com 45 pessoas, que não tem a pretensão de retratar a opinião pública brasileira, mas revela como o assunto é sentido por um público já mobilizado pela causa.

O levantamento aponta que 100% dos entrevistados afirmam que o abuso sexual no Brasil é cometido, na maioria das vezes, por pessoas próximas e familiares, evidenciando que o perigo muitas vezes mora dentro de casa.

“Não existe um perfil único que permita identificar um abusador simplesmente pela aparência ou personalidade. Essa é uma informação importante para as famílias: o perigo não necessariamente vem de uma pessoa desconhecida ou que pareça ameaçadora. O abuso pode acontecer dentro de relações de confiança, justamente porque o acesso à criança é facilitado por essa proximidade.”, orienta Darlene Barbosa.

Ive Camanducci, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Sistêmica, reforça que há diferentes motivações, padrões comportamentais, características de personalidade, contextos relacionais e trajetórias pessoais entre os ofensores. Estudos inclusive trabalham com diferentes tipologias de agressores, justamente porque o grupo é heterogêneo. 

“Alguns podem apresentar interesses sexuais persistentes por crianças; outros podem praticar abuso dentro de contextos diferentes, relacionados a poder, oportunidade, disponibilidade da vítima, violência, desinibição ou outros fatores. Por isso, seria perigoso tentar ensinar famílias a reconhecer um abusador pela personalidade. A prevenção é muito mais eficaz quando se observam comportamentos, violações de limites e dinâmicas de acesso à criança.”, explica Ive Camanducci.

Assim como não existe um padrão psicólogo conhecido em abusadores, também não existe em vítimas que se tornam “protetoras” de outras crianças. Ive Camanducci explica que algumas pessoas desenvolvem comportamentos de proteção, engajam-se em trabalhos sociais, tornam-se profissionais das áreas de saúde, segurança, assistência ou justiça, ou passam a defender de maneira muito intensa pessoas que vivenciaram situações semelhantes.

“Clinicamente, podemos compreender isso, em alguns casos, dentro dos processos de ressignificação do trauma e construção de sentido.”

A psicóloga reforça que a pessoa transforma uma experiência de profundo sofrimento em propósito, ação ou proteção de terceiros. No entanto, ela alerta que há também o conceito de crescimento pós-traumático. Ive diz que algumas pessoas, depois de experiências extremamente adversas, desenvolvem novos significados para a própria história, maior senso de propósito ou comprometimento com determinadas causas. "Isso, porém, não significa que o trauma tenha sido “bom” ou necessário para produzir crescimento. Também não significa ausência de sofrimento psicológico. Crescimento e sofrimento podem coexistir.”

Nem sempre o rompimento do núcleo familiar é, por si só, garantia de acolhimento seguro. Segundo Caio Lopes, advogado especialista em Direito da Família, os principais desafios do sistema são a escassez de profissionais especializados — sobretudo na área de psicologia — para atender crianças vítimas de violência, além da lentidão dos processos de destituição do poder familiar, que podem ter trâmite longo e burocrático.

"É necessário evitar que a criança tenha que repetir diversas vezes os relatos de violência, reduzindo a possibilidade de revitimização."

Diante disso, questionados sobre pessoas comuns que investigam suspeitos de pedofilia por conta própria antes de acionar a polícia, 48,9% consideram a atitude válida, mas arriscada, enquanto 44,4% a veem como uma atitude corajosa e necessária, somando 93,3% de aprovação em diferentes graus, com apenas 6,7% acreditando que essa deveria ser uma função exclusiva da polícia.

“É compreensível, que uma pessoa venha agir dessa maneira, contra esses predadores visando proteger futuras vítimas desse tipo de pessoa, porém é preciso muito cuidado, existem inúmeros casos de denúncias falsas de crime, onde uma pessoa inocente acaba sendo pintada como criminosa.”, explica Adriano Bernardi.

O criminalista Carlos Kauffmann diz que enquanto essas pessoas agem dentro dos limites da Lei, sem criar provas ou constranger pessoas (investigados ou vítimas), a ação é legítima. Eventuais abusos podem sujeitá-los a procedimentos criminais. Importante observar que dados abertos ao público são acessíveis a todos, inclusive àqueles que buscam, por vontade própria, combater a pedofilia.

Essa abertura para a justiça privada é acompanhada por uma profunda desconfiança institucional: em uma escala de 0 a 10 sobre a confiança de que as autoridades brasileiras investigam e punem adequadamente esses crimes, nenhum respondente atribuiu nota máxima (9 ou 10), concentrando-se as avaliações nas notas mais baixas (24,4% deram nota 5, 22,2% deram nota 4 e 11,1% zeraram a confiança).

Além disso, para 66,7% dos entrevistados, as redes sociais e aplicativos de relacionamento deveriam ser totalmente responsabilizados quando falham em impedir o uso de suas plataformas para esses crimes, enquanto 77,8% somam as piores avaliações (notas 1 e 2) ao julgarem que o tema ainda é insuficientemente discutido em escolas, na mídia e no ambiente familiar.

É nesse panorama de vulnerabilidade sistêmica, falhas estruturais e busca por respostas que a história de Teseu se insere, materializando os dramas de um país onde as vítimas muitas vezes encontram no ativismo independente a única linha de frente contra o silêncio.

A revolta acumulada pelo trauma e pela percepção de impunidade traduz-se em discursos radicais. Questionado sobre a punição ideal para os agressores, Teseu é categórico: 

"Vou ser bem direto: abuso é um crime hediondo que ocorre porque a sociedade falhou em perceber um psicopata solto. E com este tipo de doente perverso que sente prazer na dor, não tem diálogo. O remédio é a morte. Então sou a favor da pena de morte para esses monstros."

A psicanalista Darlene Barbosa comenta que para algumas pessoas, ajudar alguém pode trazer sensação de propósito e de proteção. No entanto, ficar constantemente exposto a relatos, imagens e situações relacionadas ao próprio trauma também pode ser muito pesado emocionalmente.

“Uma coisa é denunciar e ajudar as autoridades; outra é colocar o próprio sobrevivente na posição de investigador.”

Denunciar, para muitos, parece ser insuficiente, mas questionado pelo Portal Futuro Livre se existe uma tendência de endurecimento das penas de casos de abuso sexual infantil nos últimos anos ou se principal problema está na aplicação das leis já existentes, Carlos Kauffmann é direto:

“Houve endurecimento das penas e criminalização mais específicas destas condutas. Não há problema na aplicação da lei nestes casos, que exigem atenção altamente dedicada dos magistrados, pois os detalhes da prova, sua obtenção e credibilidade são fundamentais para decidir o destino de um ser humano. Os juízes que se afastam desta nobre e delicada função e a relegam à inteligência artificial, o que se mostra cada vez mais comum, perdem a sensibilidade e tratam os processos e pessoas apenas como coisas.”

Cabe lembrar que se trata da percepção do próprio criminalista sobre uma tendência que ele observa na prática, não de um levantamento estatístico da reportagem.

Vítimas de abuso sexual apresentam comportamentos diversos, e um deles é não revelar que foi uma vítima. Durante o processo de pesquisa de opinião entre os leitores do Portal Futuro Livre, uma pessoa que identificaremos como Pedro, tomou coragem de relatar o que ocorreu com ele em sua infância.

Quando tinha seis anos de idade, pelo que lembra, Pedro estava sob os cuidados da prima adolescente. A prima decidiu iniciar uma brincadeira: cabra cega. Esta brincadeira consiste em uma pessoa ficar vendada e tentar, pela audição e olfato, pegar os demais. 

“Minha prima pegou uma venda e colocou nos meus olhos, mas a brincadeira acabou ali. Ela pegou minha mão e colocou nas partes íntimas dela.”, relata Pedro.

“Eu estou sem calcinha”, foi o que a prima de Pedro disse em voz baixa, aquele momento o assustou, e ele não contou para ninguém o que havia acontecido. Conforme os dias, semanas, meses e anos foram passando, Pedro guardou para si a cena que não viu, mas presenciou.

“Só tive coragem de falar agora porque minha saúde mental está afetada, e eu acho que eu falando pode ajudar alguém.”

Para a psicóloga integrativa especialista em saúde emocional Laura Zambotto, a idade em que o abuso ocorreu — aos seis anos, sob a supervisão de uma adolescente em posição de confiança — produziu em Pedro uma profunda confusão e quebra da sensação de segurança que crianças pequenas não possuem recursos cognitivos para elaborar de imediato. 

A especialista pontua que o longo silêncio mantido por ele não diminui a gravidade do caso, sendo comum que vítimas levem anos para nomear a violência devido ao medo, à vergonha ou à falta de vocabulário emocional adequado na infância.

Laura Zambotto também alerta que o impacto do trauma frequentemente ressurge na vida adulta por meio de sofrimento psicológico e sintomas como ansiedade, depressão e dificuldades nos vínculos, ressaltando que, embora não se possa traçar um diagnóstico direto sem avaliação clínica, a revelação tardia de Pedro representa uma tentativa vital de dar significado a uma experiência que permaneceu silenciosa.

Quando inseridas em contextos de maior contato — como espaços religiosos, escolas ou atividades em grupo —, as vítimas costumam reagir de forma diferente do esperado. Longe do olhar do abusador, esse comportamento pode funcionar, mesmo sem intenção consciente, como um pedido de socorro.

Um dos integrantes do corpo de autoridades em uma das maiores denominações evangélicas pentecostais do país, a Igreja Pentecostal Deus É Amor, detalhou quando ocorre a percepção e como identificá-las: “É notório entre as crianças. Quando algum voluntário se aproxima de algumas, para trazê-las para as atividades feitas para elas, e a reação é muito forte.”

Em momentos em que uma lembrança é despertada, o choro imediato aparece. O recuo assim que alguém tenta se aproximar. Ainda que seja algo breve, como pegar na mão para direcioná-la para outro lugar, o comportamento aponta para algo fora do comum.

O que acaba por ser tido como um mau comportamento ou introspecção pode ser, na verdade, um sinal de alerta. O que também se aplica aos adolescentes. Porém, quando os sinais são ignorados por aqueles que os cercam, torna-se possível a continuidade de cada ataque, que pode se prolongar por anos e anos: “Os pais devem agir assim que percebem alguma coisa.”

“Nós, enquanto líderes religiosos, não conseguimos tratar estes casos. Por isso, orientamos a denúncia, orientamos para a polícia”.

A orientação para denunciar, portanto, é um passo importante, mas não encerra a responsabilidade de quem está diante de uma vítima. Quando a violência acontece na infância, muitas vezes o silêncio não é uma escolha simples, e romper com ele pode levar anos. Existe, nesse processo, uma responsabilidade que ultrapassa a denúncia: a de compreender que cada pessoa tem o seu próprio tempo para conhecer a violência, elaborar o que viveu e encontrar condições para falar sobre aquilo. O respeito por qualquer que seja a decisão da vítima deve ser prioridade.

“É bastante possível que uma pessoa vítima de abuso sexual na infância leve muitos anos para conseguir compreender plenamente o que aconteceu, nomear aquela experiência como violência e, posteriormente, falar sobre ela ou denunciá-la.”, explica Ive Camanducci.

A psicóloga alerta que precisamos lembrar que uma criança não possui os mesmos recursos cognitivos, emocionais e linguísticos de um adulto. Dependendo da idade em que o abuso acontece, ela pode sequer compreender a natureza sexual do ato ou entender que aquilo constitui um crime.

O relato de Pedro, que levou anos para revelar o que viveu ainda criança, dialoga diretamente com uma pergunta sobre o próprio sistema de Justiça: os tribunais estão mais preparados para escutar? Para Caio Lopes, sim — os tribunais de família vêm evoluindo na quebra do silêncio e na proteção de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, especialmente com o surgimento de novas leis, como a Lei Henry Borel.

"O maior conhecimento da população sobre os canais de denúncia tem contribuído para que práticas abusivas sejam mais identificadas e comunicadas às autoridades, possibilitando maior responsabilização dos envolvidos."

Além do Disque 100, os principais canais para denúncias de abuso sexual no Brasil hoje são:

Conselho Tutelar — órgão municipal responsável por atender crianças e adolescentes com direitos violados; toda cidade tem um, e é o canal que geralmente recebe o encaminhamento de casos vindos do Disque 100;

Disque 197 (Polícia Civil) — ligação gratuita, atendimento 24h, ou ir pessoalmente à delegacia mais próxima;

Delegacia de Polícia Civil mais próxima, responsável por investigar e enviar o resultado ao Judiciário;

Ministério Público — também pode receber denúncias diretamente, além de atuar na defesa dos direitos de crianças e adolescentes;

Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher, relevante quando o caso envolve violência doméstica cruzada com abuso infantil.

“Os crimes sexuais de abuso infantil, na grande maioria das vezes, são cometidos na clandestinidade sem que a criança ou adolescente, receosa, tenha meios de se defender e divulgar os fatos. Neste campo, porém, deve-se tomar absoluto cuidado com memórias implantadas em menores, que são absolutamente sugestionáveis, seja para que passem a acreditar que condutas criminosas são normais, seja para, por meio de manipulação ou alienação parental, narrar fatos inexistentes. É necessário urgente aprimoramento do Poder Judiciário para que estas questões, de extrema gravidade, não sejam tratadas sem especialização absoluta de psicólogos e assistentes sociais.”, diz Carlos Kauffmann.

"A atenção de familiares, vizinhos e da escola também é fundamental para identificar sinais de violência e permitir uma intervenção precoce, antes que a situação se agrave.", explica Caio Lopes.

É importante ficar em alerta em relação aos sinais de que uma criança possa ter sofrido abuso, porém, Darlene Barbosa explica que não existe um sinal único que confirme que a criança passou por este trauma. No entanto, a especialista lista mudanças importantes de comportamento que merecem atenção: medo repentino de determinada pessoa, isolamento, alterações no sono, mudanças bruscas de humor, regressão de comportamentos, queda no rendimento escolar ou comportamentos sexualizados que não correspondem à idade.

“O mais importante é observar mudanças significativas no comportamento da criança e conversar com ela sem acusá-la, pressionar ou colocar palavras em sua boca.”, orienta Darlene Barbosa.

As pessoas são diferentes umas das outras. Teseu e Pedro demonstram bem isso. Enquanto um nomeou o que presenciou e denunciou, outro não, e isto é comum e deve ser respeitado.

“O silêncio durante anos não invalida um relato. A literatura sobre violência sexual reconhece amplamente que a revelação pode ser tardia. Muitas vítimas somente conseguem organizar a própria narrativa quando alcançam maior maturidade emocional, independência ou condições psicológicas de compreender aquilo que viveram.”, afirma Ive Camanducci.

A forma como as vítimas lidam com o trauma do abuso é frequentemente visitada por pesquisas científicas e psiquiátricas. O psiquiatra Carlos Shollet Kocerginsky explica que é extremamente comum o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) ou transtornos de ansiedade grave se manifestarem ou se intensificarem de forma disfuncional apenas na idade adulta, mesmo quando o trauma, especialmente o Abuso Sexual Infantil (ASI), ocorreu anos ou décadas antes.

“Na literatura científica e psiquiátrica, esse fenômeno é muito bem documentado e fundamentado por diversos mecanismos neurobiológicos e psicológicos.”

Carlos Shollet Kocerginsky explica que o DSM-5-TR reconhece explicitamente o especificador de início tardio, aplicado quando o conjunto completo dos critérios diagnósticos do TEPT só é preenchido pelo menos seis meses após o evento traumático — e, em muitos casos de abuso infantil, a eclosão total dos sintomas ocorre 10, 20 ou 30 anos depois.

DSM-5-TR é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — 5ª edição, Texto Revisado (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision).

“Crianças expostas a trauma grave, especialmente por adultos em posições de confiança ou em fases de desenvolvimento vulneráveis, frequentemente utilizam a dissociação e a repressão como estratégias de sobrevivência psicológica. A mente infantil "engaveta" ou desfragmenta a memória afetiva do trauma para permitir que o indivíduo continue se desenvolvendo social e cognitivamente.”

O psiquiatra alerta que na fase adulta, transições de vida e novos marcos maturacionais atuam como potentes desencadeadores. Tornar-se pai ou mãe, por exemplo, pode quebrar a dissociação e trazer à tona a percepção real da vulnerabilidade que o indivíduo tinha quando criança. O início da vida sexual madura ou a busca por intimidade conjugal também pode reativar memórias implícitas de violação de limites corporais.

No caso específico do Teseu, segundo o psiquiatra, a decisão de se expor ativamente ao ambiente abusivo, mesmo em um papel de investigador/protetor, funciona como uma ‘reexposição’ maciça ao material traumático. O papel de "caçador/protetor" na vida adulta é, muitas vezes, uma tentativa inconsciente de hipervigilância ou de reescrever o desfecho da própria infância, mas a sobrecarga somática e cognitiva resultante pode descompensar o sistema nervoso central e deflagrar TEPT de forma avassaladora.

"A intenção de proteger outros e transformar uma vivência dolorosa em altruísmo é nobre, e o conceito de sublimação, transformar impulsos e traumas em ações socialmente construtivas, é um mecanismo de defesa maduro e bem descrito na psicanálise. No entanto, sob a ótica da psiquiatria clínica, da psicologia do trauma e da traumatologia vicária, a exposição direta e não estruturada aos mesmos gatilhos do abuso infantil traz riscos altíssimos para a saúde mental e para a segurança do indivíduo. Não se trata de uma atitude 'saudável' no sentido pleno de reparação ou cura. Na verdade, essa conduta frequentemente esconde um mecanismo defensivo mais complexo e disfuncional.”, afirma Carlos Shollet Kocerginsky.

A leitura do psiquiatra não é um diagnóstico sobre Teseu — a quem esta reportagem não submeteu a nenhuma avaliação clínica —, mas um alerta sobre os riscos que esse tipo de exposição pode representar para qualquer sobrevivente que escolha um caminho semelhante. Entre o gesto de coragem e o risco ao próprio bem-estar, talvez não exista uma linha clara — e é justamente essa tensão, sem resposta fácil, que a reportagem optou por expor, em vez de resolver por ele.

Revisitar o trauma, seja frequentando fóruns, lendo chats com conteúdos de abuso e convivendo com o vocabulário e as táticas de predadores sexuais não é apenas “lembrar do passado”. Trata-se de uma exposição do cérebro ao material traumático. O psiquiatra alerta que a amígdala cerebral e o sistema nervoso autônomo interpretam esses conteúdos como ameaça ativa contínua. 

“Em vez de promover dessensibilização ou ressignificação, essa hiperestimulação prolongada mantém o eixo HPA (sistema do corpo que regula a resposta ao estresse), em constante sobrecarga, podendo precipitar episódios graves de TEPT, crises de pânico, depressão profunda e colapso dissociativo.”, afirma Carlos Shollet Kocerginsky.

“Mesmo profissionais treinados, como peritos, policiais e psicólogos forenses, que lidam com esse tipo de material utilizam protocolos rígidos de rotação de função, supervisão e suporte psicológico para evitar o trauma vicário. Em um indivíduo atuando de forma autônoma e sem essa estrutura protetiva, o esgotamento emocional é quase inevitável.”

Para Carlos Shollet Kocerginsky, existe tratamento para a pedofilia, enquanto ela é considerada um transtorno. O bloqueio hormonal é um deles, de acordo com o psiquiatra. Não existe um "pedofilicida" ou um medicamento com indicação primária em bula (on-label) exclusivamente formulado para apagar a preferência sexual pedofílica.

“O foco do tratamento farmacológico é a redução drástica do drive, ou impulso sexual, da frequência de pensamentos intrusivos e fantasias parafílicas e do comportamento de busca, diminuindo substancialmente o risco de agir (acting out) e a reincidência.”

O psiquiatra explica também que a terapia de privação androgênica (TPA) é o padrão-ouro para casos de alto risco de violência sexual ou em situações de determinação ou acordo judicial.

“Os agonistas do GnRH, como triptorrelina, leuprorrelina e goserrelina, promovem uma dessensibilização e down-regulation dos receptores de GnRH na hipófise após um surto inicial, levando a uma supressão profunda do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Com isso, reduzem a testosterona circulante a níveis de castração cirúrgica.”

Em termos práticos, o tratamento reduz quimicamente o impulso sexual, funcionando de forma semelhante à castração química.

O psiquiatra diz que também existem outras abordagens farmacológicas, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), utilizados não apenas pelo efeito colateral de disfunção sexual, mas principalmente para tratar a comorbidade obsessivo-compulsiva e a impulsividade.

O manejo prolongado do bloqueio hormonal exige monitoramento rigoroso devido aos impactos sistêmicos da privação androgênica, incluindo efeitos metabólicos, ósseos, cardiovasculares e psíquicos.

A intervenção farmacológica fornece uma "janela de oportunidade neurobiológica" ao conter a tempestade dopaminérgica/androgênica do impulso. No entanto, o controle de longo prazo e a prevenção de recaídas dependem da associação com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) especializada.

Carlos Shollet Kocerginsky explica que indivíduos sem histórico de crime, geralmente há buscas voluntárias por ajuda. Essa ajuda é tomada por angústia, culpa, sofrimento psíquico e medo de agir.

“O sigilo médico ou terapêutico é preservado. O fato de ter fantasias ou atração pedofílica não constitui crime pelo Código Penal brasileiro. O crime exige a conduta ou ato ou a posse ou consumo de material de abuso infantil.”

“A preservação do sigilo é o único pilar que permite que esses indivíduos procurem ajuda antes que uma criança seja vitimizada. O dever de quebra de sigilo só se impõe em caso de perigo iminente e concreto de dano a terceiros.”, explica o psiquiatra.

É importante salientar que em casos de abuso e exploração sexual infantil, predadores dificilmente agem de forma ostensiva ou abrupta no ambiente familiar ou social. 

“A estratégia do agressor baseia-se no aliciamento, grooming, um processo gradual e articulado que busca seduzir a criança, dessensibilizar seus limites físicos, anestesiar a vigilância dos pais e criar um ambiente de isolamento e cumplicidade.”, alerta Carlos Shollet Kocerginsky.

Na prática clínica e forense, segundo o psiquiatra, o princípio fundamental para familiares e protetores é simples: afeto saudável respeita limites, transparência e autonomia da criança. Todo comportamento adulto que busque o segredo, a exclusividade ou a quebra da supervisão dos pais no contato com uma criança deve ser encarado com alto nível de suspeição e investigação imediata, independentemente do grau de parentesco, afinidade ou status social do indivíduo.

Criptografar é, antes de tudo, um ato de esconder — transformar algo em um código que só quem tem a chave certa consegue ler. Ao longo desta investigação, encontramos mais de uma criptografia. Há a dos predadores, que usam símbolos para se reconhecerem sem serem vistos, driblando moderadores e escapando de filtros automáticos. E há uma outra, menos visível, mas igualmente real: a que a própria mente de uma criança constrói para sobreviver ao que não deveria ter vivido — guardando o que aconteceu em um lugar de difícil acesso, às vezes por anos, às vezes por décadas, até que exista segurança, palavra ou tempo suficiente para reabri-lo.

Pedro levantou essa cifra depois de décadas de silêncio, numa entrevista que não pedia relato nenhum. Teseu a decifrou ainda jovem, e transformou a própria dor em investigação — um gesto de coragem que também carrega um preço, o de se manter perto, repetidas vezes, daquilo que mais feriu. Nenhum dos dois caminhos é mais válido que o outro. Não existe uma chave única, nem um tempo certo para nomear o que se viveu — e essa demora nunca é motivo para dúvida ou julgamento.

O que existe, e o que esta reportagem tentou fazer, é abrir um pouco mais essa cifra: mostrar como os predadores se organizam, sem ensinar como reproduzi-los; ouvir quem decidiu falar, sem forçar quem ainda não pôde; e nomear, com todo o rigor que o tema exige, a diferença entre o que é transtorno e o que é crime, entre o que é justiça e o que é vingança.

Nem todo código tem uma solução simples. Mas cada denúncia registrada, cada dado levantado, cada relato colhido nesta apuração é uma tentativa de tornar visível o que foi construído, deliberadamente, para não ser.

Esta reportagem contou com o apoio técnico e jurídico de Thiago Rech, advogado criminalista e colunista do Portal Futuro Livre.

 

 

Comentários:
Barbara Siqueira, Gustavo Silva, Lucas Rogerio e Thiago Rech

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Barbara Siqueira, Gustavo Silva, Lucas Rogerio e Thiago Rech

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