Um relatório da Polícia Federal, que teve o sigilo retirado nesta terça-feira, 01 de setembro, pelo Ministro André Mendonça, do STF, expôs uma série de mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e o Ministro Alexandre de Moraes, também do STF. O documento, elaborado a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, revela desde pedidos de ajuda feitos pelo banqueiro nos dias que antecederam sua prisão até uma relação financeira entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
Dois dias antes de ser preso pela PF, quando tentava embarcar em um avião particular rumo a Dubai, Vorcaro perguntou a Moraes se precisaria deixar o país. "Acha que segunda já tenho que estar fora?", escreveu o banqueiro em 15 de novembro de 2025, segundo revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Na mesma mensagem, ele questionou se um determinado juiz e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estariam a par da situação. No dia seguinte, véspera do cumprimento do mandado de prisão, Vorcaro voltou a insistir: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?". A PF apontou que o teor das conversas permite deduzir que Moraes municiava o banqueiro com informações sobre o andamento das diligências planejadas contra ele.
Um dia antes desses questionamentos, em 14 de novembro de 2025, Vorcaro havia enviado a Moraes uma mensagem de agradecimento em tom pessoal, na qual afirmou ter uma "dívida de vida" com o Ministro. "Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser", escreveu, horas depois de tratar com o Ministro sobre um encontro marcado na casa do próprio banqueiro.
O relatório também mostra que Vorcaro tratava o pagamento ao escritório da esposa de Moraes como prioridade absoluta dentro do banco, chegando a chamá-lo de contrato "mais importante" que tinha. Em mensagens a funcionários, orientava que os repasses nunca atrasassem e evitava que fossem feitos por Pix, recomendando pagamentos sem nota. O contrato entre o Banco Master e a Barci de Moraes Sociedade de Advogados somava R$ 131 milhões, distribuídos em 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões, e previa que o escritório defendesse a instituição financeira em inquéritos abertos na própria Polícia Federal, além de processos no Banco Central, na Receita Federal e no Cade.
Segundo apurou o Estadão, metadados do arquivo desse contrato, extraídos do celular de Vorcaro, indicam que o documento foi aberto e editado por um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes" no sistema Office 365, cerca de uma hora e 40 minutos depois de o banqueiro devolver a minuta com sugestões de revisão, em 15 de janeiro de 2024. Em nota, o escritório de Viviane Barci confirmou que Moraes teve acesso ao contrato, mas afirmou que a consulta partiu do setor de compliance da própria banca, que buscou saber, "na condição de marido da sócia diretora do referido escritório", se havia impedimentos legais para a contratação, como ações sob a relatoria do Ministro no STF. Segundo a nota, não foi identificado nenhum entrave, e o contrato seguiu adiante.
As mensagens revelam ainda que Vorcaro consultava Moraes sobre assuntos pessoais e institucionais, como a lista de convidados de um evento jurídico que o banqueiro organizava em 2025, o II Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias. Em conversas com uma funcionária, Vorcaro afirmou que precisava aprovar os convites com Moraes antes de enviá-los e chegou a vetar a participação de Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, como moderador de um painel, alegando que a presença do dirigente desagradaria o Ministro: "Alexandre morre se você fizer isso. Aliás, nos mata".
O conjunto de revelações também provocou um confronto direto entre ministros do STF, segundo apurou o Metrópoles. Ao saber que Mendonça havia determinado à PF o aprofundamento de investigações que acabaram expondo suas conversas com Vorcaro, Moraes pediu um encontro com o colega, e a reunião terminou em bate-boca, quase resultando em confronto físico. O estopim foi a descoberta, por Mendonça, de que Moraes era o interlocutor citado em uma conversa na qual Vorcaro pedia "proteção" ao Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e ao Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues. Mendonça já avalia levar ao Presidente do STF, Edson Fachin, um pedido formal de abertura de investigação contra Moraes, e apura os votos que teria a favor da medida entre os demais ministros da Corte.

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