Há quem entre num ambiente e repare no piso, no sofá, na parede de destaque. Zaira repara na luz. Percebe de onde ela vem, por onde atravessa o espaço, que sombras deixa pelo caminho. Só depois olha a circulação, e só então se dá conta do que o lugar a faz sentir. Alguns espaços convidam a ficar. Outros parecem pedir, sem dizer, que a pessoa vá embora. Boa parte do trabalho dela é descobrir o que separa uns dos outros.
É um olhar treinado, mas começou antes do treino.
Zaira nasceu em Paraty. Quem conhece a cidade sabe que ela forma o olhar de quem cresce ali: casas históricas, ruas de pedra, vegetação por todo lado, o mar sempre por perto, o espaço público como extensão natural da vida. Uma criança que cresce nesse cenário aprende, sem que ninguém explique, que a casa é mais do que um lugar para morar. É onde as memórias se acumulam.
Não houve um dia em que ela decidiu ser arquiteta. O caminho foi se desenhando devagar, como acontece com as vocações que são, no fundo, jeitos de olhar. Ela gostava de imaginar possibilidades, de pensar como as pessoas poderiam viver melhor num lugar. Quando entendeu que existia uma profissão feita disso, descobriu que ela reunia tudo o que sempre a interessou: arte, estética, comportamento e a chance de mexer, de leve, na vida cotidiana de alguém.
Depois veio São Paulo, com outra escala e outros ritmos. Entre as duas cidades, formou-se um repertório que cabe em poucas palavras: o carinho pela arquitetura modernista brasileira, que sabe conversar com a paisagem, e a atenção à arquitetura vernacular, aquela que nasce da necessidade e da cultura de cada lugar, sem arquiteto famoso assinando.
O que cresce
Zaira é arquiteta e paisagista, e a conjunção importa. Para ela, as duas coisas nunca fizeram sentido separadas. A arquitetura organiza o espaço. O paisagismo acrescenta o que a obra sozinha não tem: tempo. Uma planta cresce, muda de forma, acompanha as estações. Um jardim continua sendo projetado depois que a equipe vai embora.
Essa ideia, a de que um projeto não precisa estar pronto no dia em que a obra termina, é rara numa profissão que costuma medir sucesso pela fotografia da entrega. Mostra também uma generosidade com o futuro. Ela projeta contando com o que ainda vai acontecer ali, inclusive com o que não consegue prever.
Há nisso uma defesa prática, quase urgente, do verde nas cidades. Uma árvore muda a temperatura de um ambiente. Uma janela voltada para folhas muda a sensação de um cômodo. Cuidar de uma planta é, numa rotina acelerada, um pequeno ritual de pausa. Zaira recusa a ideia do paisagismo como enfeite de última hora e o trata como parte da qualidade do espaço.
A planta que a define, diz ela, é a costela-de-adão: escultural, de folhas grandes, crescendo em busca de luz e de espaço. Forte, mas ainda tropical, orgânica, cheia de movimento. Poucas escolhas descrevem tão bem uma pessoa.
A arte de ouvir
O método de Zaira começa onde a maioria dos projetos termina: numa conversa. Antes de qualquer traço, ela quer entender quem é a pessoa do outro lado da mesa, como vive, o que a incomoda na casa atual, o que espera da próxima. Escuta as referências e também as contradições. Sabe que o cliente que chega com uma pasta cheia de imagens muitas vezes precisa de algo que não está em nenhuma delas.
Essa escuta tem uma consequência estética. Seus projetos não poderiam pertencer a qualquer pessoa, e ela faz questão disso. Procura um conceito que conduza as decisões sem engessar o processo, e o primeiro desenho acaba sendo só a consequência de tudo o que veio antes. Antes de desenhar uma parede, ela precisa entender o que vai acontecer entre elas.
Há um único ponto em que não cede: a funcionalidade. Um espaço bonito que não funciona para quem vive nele falhou, e ela não acredita que beleza e uso precisem disputar o mesmo terreno. Os melhores projetos, diz, são aqueles em que um potencializa o outro. É no cotidiano que a arquitetura se prova.
Quando o gosto do cliente diverge do dela, Zaira não impõe. Tenta entender a origem da vontade, apresenta possibilidades, explica as consequências de cada escolha. Reconhece que o que escolheria para si nem sempre faz sentido para outra pessoa, e que arquitetura não é sobre o gosto de quem projeta. Quase sempre, com diálogo, aparece um caminho que respeita a identidade de quem vai morar e preserva a qualidade do projeto.
O centro como escola
A virada na carreira veio quando o ateliê, hoje chamado Nuestro, se consolidou e encontrou um território próprio: os projetos para hospedagem. Zaira passou a trabalhar com apartamentos no centro de São Paulo, em edifícios que são marcos da cidade, como o Copan e o Mirante do Vale.
É um tipo de trabalho que exige duas virtudes ao mesmo tempo. A primeira é o respeito por construções que já têm história e precisam ser adaptadas à vida contemporânea sem perder a alma. A segunda é a engenhosidade: nos espaços compactos, cada centímetro precisa resolver mais de uma coisa. Foi aí que ela desenvolveu uma linguagem própria, e aprendeu que as limitações podem ser o maior estímulo criativo. Muitas das melhores soluções, ela notou, nascem justamente do que parecia um problema.
A obra ensinou o resto. Nenhum projeto existe exatamente como foi imaginado no papel. Há pessoas, imprevistos, decisões a tomar na hora. Projetar, descobriu, também é saber se adaptar, e uma boa comunicação entre todos os envolvidos evita problemas maiores do que qualquer erro técnico.
Autoridade sem imitação
Nem todo caminho foi plano. Zaira fala sem rodeios da dificuldade de conquistar credibilidade em ambientes ainda muito masculinos, sobretudo na execução das obras, onde decisões e conhecimentos precisam ser reafirmados com uma frequência que talvez não existisse se viessem de um homem. Empreender trouxe seu próprio currículo oculto: gestão, negociação, tudo o que a faculdade não ensina.
Do atrito, saiu uma conclusão que ela carrega com serenidade. Não precisa reproduzir uma postura masculina para ser respeitada. Pode construir a autoridade do seu jeito, e é o que faz.
Duas vozes, um olhar
Em paralelo ao escritório, Zaira ganhou um público. Aconteceu de modo orgânico, a partir do hábito antigo de compartilhar referências, lugares e descobertas. A arquitetura entrou no conteúdo porque faz parte de quem ela é, e as redes lhe permitiram conversar com gente que talvez nunca chegasse ao escritório pelos caminhos tradicionais. Também mostraram que existe muito interesse por arquitetura quando ela é apresentada sem a aura de coisa distante, reservada a poucos.
Ela não enxerga a arquiteta e a criadora como identidades em disputa. Uma alimenta a outra: o escritório dá repertório e experiência real, e o conteúdo obriga a pesquisar, observar e traduzir o técnico para uma linguagem próxima. Conciliar tudo exige organização, ainda mais somada à rotina da maternidade, que ela descreve como uma dimensão completamente nova em sua vida. Mas, no fim, são só maneiras diferentes de expressar o mesmo olhar.
Uma casa que não posa
Fora do trabalho, Zaira é curiosa e inquieta, apaixonada por descobrir. Gosta de viajar, de observar gente, de arte, de moda, de música. É muito ligada à família, aos amigos e aos animais. Convive com a vontade de viver muitas coisas ao mesmo tempo e com um apreço sincero pelos pequenos rituais do dia a dia.
Tudo isso escorre para os projetos. Ela defende a casa vivida, mais do que a casa bonita: espaços que recebem pessoas, objetos com história, ambientes que aceitam mudanças e não exigem estar sempre impecáveis. A própria casa é seu laboratório. Muda coisas de lugar, testa composições, observa como pequenas transformações alteram a relação com o ambiente.
A inspiração, para ela, está em toda parte: na forma como a moda trabalha proporção, cor e textura, em como a música constrói atmosferas, em como a arte provoca sensações. Nas viagens, visita mercados, hotéis, restaurantes, museus e até supermercados de outros países. Acredita que a inspiração aparece quando estamos disponíveis para observar, e que raramente vem de algo extraordinário.
O espaço ideal, na sua descrição, tem muita luz natural, vegetação, materiais que envelhecem bem, objetos que contam histórias. Acolhe sem formalidade: uma casa onde se chega, tiram-se os sapatos, senta-se no sofá. Permite o encontro e também o silêncio. E tem, sempre, uma boa relação com o lado de fora.
Os materiais seguem a mesma ética. Ela ama a madeira natural, pela textura, pelo aconchego, pelo jeito de envelhecer, e evita o que tenta imitar outra coisa sem conseguir. Prefere a honestidade dos materiais, mesmo quando são simples. Dá para ler nisso uma estética, mas também um temperamento.
Entre dois mundos
Se perguntarem qual é o lugar favorito dela no mundo, Zaira responde com Paraty: onde nasceu, onde está a família, onde ficaram as primeiras memórias, a paisagem, o mar. Mas é sincera ao admitir que também ama a energia das grandes cidades, e tem um encanto particular pelo Rio de Janeiro, que junta vida urbana intensa e natureza impressionante.
Seu lugar ideal, conclui, tem um pouco dos dois mundos. A frase serve como retrato: uma arquiteta que carrega a pedra e o mar de Paraty para dentro de uma metrópole, e a pressa da metrópole para dentro de cada recanto que desenha com calma.
O que ainda vem
Para o futuro, Zaira sonha com um hotel ou uma pousada em que possa pensar toda a experiência: a arquitetura, o paisagismo, os interiores, os detalhes miúdos de quem se hospeda. De preferência perto do mar, com a obra conversando fundo com a paisagem e a cultura local. Seria o encontro das coisas que mais ama, os espaços que recebem pessoas e fazem memória.
Sobre o rumo da profissão, aposta que ficarão a busca por espaços ligados à natureza e ao bem-estar, a valorização dos materiais naturais e do reaproveitamento, as soluções mais conscientes. E dá pouco prazo de vida à pressa de transformar cada ambiente num cenário de tendência. Quando tudo começa a parecer igual, perde-se o que torna a arquitetura interessante: a identidade.
Para quem está começando, o conselho vem sem pressa. Não se cobre um estilo pronto, porque ele se constrói com tempo, repertório e experiência. Viaje, observe a cidade, leia sobre o que não seja arquitetura, aprenda gestão, comunicação e negócios. Ser um bom arquiteto, lembra, é muito mais do que saber projetar.
Pergunte a ela o que diria à Zaira do primeiro dia de carreira e a resposta é um pedido de confiança: confie mais no seu olhar. Você não precisa ter todas as respostas agora, só precisa continuar curiosa e ter coragem de construir o seu próprio caminho.
Perguntada por uma palavra que resuma seu estilo, escolheu uma só: afetivo. Quem passa algum tempo diante do que ela faz entende que a palavra descreve a pessoa antes de descrever o estilo.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se