Há meses atrás, a chamada “CPI das Bets”, que recebeu no Senado nomes comuns ao entretenimento brasileiro atual nas redes sociais, tais como Rico Melquíades, se consolidava como um dos assuntos de maior destaque no primeiro semestre do ano. E isso não somente devido a falas específicas deste e de outros influenciadores presentes, comportamentos extrovertidos inesperados por parte dos parlamentares e até mesmo à tentativa da construção de uma imagem inocente por parte de uma das convidadas a depor, mas, também, a um fato surpreendente que acabou por não ser considerado da maneira que deveria.
Apesar do retorno do debate sobre a moralidade e a ética dentro do mundo da publicidade e seus acordos financeiros devido à ocasião, o número de consumidores dos conteúdos de divulgação de casas de aposta não diminuiu conforme o esperado. E, mesmo depois da repercussão negativa a respeito destes mesmos nomes conhecidos, muitos de seus seguidores permaneceram mantendo-se “fiéis” e acompanhando toda a sua movimentação. O que contrastou com a ideia geral de que, diante de tamanho acontecimento, a antiga questão do “certo e errado” retornaria ainda mais forte e, por meio dela, tal problemática seria enfraquecida.
Mas por que tantas pessoas decidiram permanecer consumindo algo que lhes acarretaria malefícios que vão muito além do financeiro, chegando até ao ponto, como visto em certos casos, do ato de suicídio? Talvez, a resposta seja mais surpreendente do que se pode pensar: assim como desde a infância se percebe o molde para que sejam construídos gostos para diversas coisas, aconteceu com o anseio pela chance de poder viver como aqueles que se beneficiam dos ganhos com as casas de apostas.
Quantas vezes é possível presenciar pessoas próximas ou pouco distantes colocando como centro de seus intuitos o querer de uma vida não somente próspera, mas que realmente exceda os padrões do conforto necessários a ponto de se tornar luxo? Exatamente como aquilo que se vê por meio de uma postagem, por exemplo? Sendo que, para uma estabilidade no padrão de vida, o mesmo não se faz necessário? Isso, por sua vez, não acontece apenas por uma questão de senso comum somente, mas vem diretamente da fonte da desigualdade social e da ideia de meritocracia, que ainda são fortemente presentes no país. O que faz com que a opção de ceder a este entendimento, ainda que não seja condizente com as reais vivências da maioria da população, seja comum.
Não é algo intencional, não diante de dados tão alarmantes sobre o analfabetismo funcional. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Indicador de Analfabetismo Funcional em 2024, apenas 10% da população possui o nível proficiente, capaz de interpretar textos de maior complexidade, resolver problemas matemáticos e avaliar informações de maneira crítica. Diante disso, o consumo destas e de outras tantas coisas consideradas como críticas também em seus supostos resultados fazem parte ativamente da vida de tantos que nem sequer sabem que estão sendo moldados para tal.
E a maneira de reparar esse dano não pode se pautar apenas em exigir maior responsabilidade para com trabalhos e meios de divulgação, mas também em reconhecer a necessidade de se voltar à informação e entender que, mais do que apenas vídeos, o conteúdo que se escolhe consumir é fruto de um projeto, que tem como seu principal objetivo mais do que apoiar o ramo de apostas: o de manter as necessidades da maioria em um ponto baixo, para que, mais do que apenas influencers, se beneficiem da ausência de percepção do que realmente importa mais do que certos contratos.

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