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Quando o abraço vira agressão e o silêncio vira cúmplice
Interferência

Quando o abraço vira agressão e o silêncio vira cúmplice

Um relato pessoal que expõe como a omissão coletiva em espaços públicos ajuda a naturalizar a violência travestida de afeto

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Estava sentado no ponto final, esperando meu ônibus para voltar pra casa. O local, lotado de pessoas, parecia um cenário comum de fim de tarde. Até que deixou de ser.

Sem aviso, uma mulher visivelmente embriagada se aproximou e me abraçou com tanta força que me derrubou. Estava sentado, e ela praticamente me imobilizou com os braços, como se fosse uma chave de pescoço disfarçada. Eu repetia: “me solta, me solta”, mas ela não me soltava. E, mais doloroso do que o tombo em si, foi perceber que ninguém, absolutamente ninguém, interveio.

Na hora, o corpo ainda funcionava no modo automático, o de quem quer apenas sair da situação. Quando finalmente consegui embarcar no ônibus, comecei a sentir dores. Só em casa percebi que meu cotovelo estava inchado. E aí veio o choque, seguido da dúvida: o que foi aquilo? Uma agressão? Um surto alheio? Um descaso coletivo?

Dou risada quando conto, não por achar graça. É aquele riso sem graça que surge quando o absurdo se impõe. Porque a situação, vista de fora, pode até parecer cômica. Mas foi trágica. Uma agressão sofrida em público, sem nenhuma ajuda, que poderia ter tido consequências sérias, como uma batida na cabeça poderia ter me levado a desmaiar ou algo pior.

O episódio levanta uma questão que precisa ser discutida: até que ponto a sociedade continua tratando invasões físicas como algo menor quando são cometidas sob o disfarce do “afeto” ou da “confusão”? Por que a embriaguez do agressor é vista como atenuante, enquanto o desconforto da vítima é silenciado ou ignorado?

Em tempos em que se fala tanto sobre segurança pública, é preciso lembrar que o corpo é nosso primeiro território. E que ele deve ser respeitado, mesmo que o agressor pareça inofensivo, esteja alterado ou diga que “só queria abraçar”.

Escrevo esse relato porque não quero que o silêncio se repita. Porque se calar diante do absurdo é normalizá-lo. E porque rir sozinho da própria dor também cansa.

Ilustração

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Ilustrativa
Lucas Rogério

Publicado por:

Lucas Rogério

Lucas Rogério é cofundador e editor-chefe do Portal Futuro Livre, assina a Coluna Interferência e produz séries e reportagens especiais.

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