Em tempos de alta tecnologia, quando o acesso à informação é praticamente ilimitado, cresce silenciosamente um fenômeno preocupante: o avanço da tecnicidade. Quando um professor se limita a repetir o que está nos livros ou um médico segue protocolos sem sequer olhar nos olhos do paciente, algo essencial se perde. A técnica, nesse contexto, passa a se sobrepor ao propósito, e a relação humana é deixada de lado.
A tecnicidade é mais do que a aplicação mecânica de procedimentos. Ela representa a inversão de prioridades em que a forma importa mais do que o conteúdo. O problema se agrava quando esse modelo de pensamento se expande para outras esferas sociais, como o debate público, a política e a vida cotidiana. A superficialidade se impõe. O que antes era reflexão agora se reduz a fórmulas prontas. E, nesse processo, o pensamento crítico vai sendo sufocado.
Mesmo com o aumento das possibilidades de conexão e participação, a sociedade parece estar mais imediatista e menos disposta a escutar. As discussões, muitas vezes, se baseiam em respostas automáticas, empobrecidas, que desestimulam a dúvida e o questionamento. O excesso de informação assusta, gera ansiedade e cansaço mental. Pensar passou a ser visto como perda de tempo. Ter uma opinião virou sinônimo de reproduzir o que se escutou no vídeo mais recente, e não fruto de reflexão.
A consequência disso é o que se pode chamar de analfabetismo social. Pessoas conectadas o tempo todo, mas incapazes de compreender a complexidade dos problemas ou de dialogar com quem pensa diferente. Esse fenômeno favorece a manipulação. Quem detém algum poder de fala ocupa espaços e define verdades, sem que haja espaço real para contestação. Assim, o discurso técnico, mesmo vazio, é aceito com naturalidade.
É preciso resgatar o valor do pensamento como ferramenta de transformação. Ouvir com atenção, refletir antes de falar, buscar diferentes perspectivas e compreender o contexto das questões sociais são práticas que devem ser valorizadas. O uso da técnica deve estar a serviço do propósito, e não o contrário. Somente assim será possível romper com a lógica automatizada da tecnicidade e reconstruir um ambiente mais crítico, mais humano e, acima de tudo, mais consciente.
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