A megaoperação Carbono Oculto, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) criou uma sofisticada engrenagem para lavar dinheiro. O esquema, que movimentou bilhões entre 2020 e 2024, usava desde postos de combustíveis e usinas sucroalcooleiras até padarias de bairro e lojas de conveniência.
Segundo a Receita Federal, uma rede de 1.200 postos movimentou mais de R$ 52 bilhões em quatro anos, mas recolheu apenas 0,17% em impostos. Parte desse dinheiro foi escoado por 40 fundos de investimento com patrimônio de R$ 30 bilhões, operados por gestores da Faria Lima.
Entre os elos finais de ocultação estavam padarias espalhadas por São Paulo, criadas e extintas em ritmo acelerado, com donos sobrepostos e CNPJs em duplicidade. O Gaeco identificou pelo menos seis estabelecimentos ativos e dezenas de empresas fantasmas.
Um dos exemplos é a proliferação de padarias chamadas Iracema na região da avenida Angélica, nos Campos Elíseos. Oficialmente, algumas delas estão no nome de Tharek Majide Bannout, mas o inquérito cita outros três estabelecimentos com nomes quase idênticos. O mesmo padrão se repete com a rede Salamanca.
Os investigadores também miraram em Maria Edenize Gomes, moradora de Santo Amaro das Brotas (SE), cidade com pouco mais de 11 mil habitantes. Sem vínculo empregatício formal, ela apareceu como sócia de 70 empresas em menos de um ano – 33 delas ainda ativas, incluindo padarias.
Entre seus negócios fictícios estão padarias das redes Dubai, Salamanca e Iracema. O MPSP aponta que Edenize seria laranja de Tharek Bannout e, por extensão, de Mohamed Hussein Mourad, descrito como o verdadeiro beneficiário do esquema e operador da distribuidora Aster e da formuladora Copape.
Além das padarias, lojas de conveniência funcionavam como fachadas. O caso mais emblemático é o da rede Khadige Conveniência Ltda (Empório Express Ltda), atribuída a Amine Mourad, irmã de Mohamed. A rede chegou a ter 168 filiais, quase todas extintas em 2023.
Segundo o MPSP, a transição para o Group Potenza Atacadista e depois para as Strawberry Lojas de Conveniência, abertas por Ricardo Romano, foi apenas uma manobra para ocultar o verdadeiro controlador. Romano é descrito como figura-chave ligada ao PCC e responsável por abrir 18 novas conveniências nos mesmos endereços das antigas filiais.
No topo da pirâmide, o dinheiro circulava por fintechs e fundos de investimento operados no coração financeiro do país. Ali, operadores especializados em “blindagem patrimonial” transformavam dinheiro ilícito em ativos aparentemente limpos, conectando o crime organizado ao mercado formal.
Entre os investigados estão as instituições financeiras BK e Banrow, além das usinas Itajobi e Carolo. Dois nomes são apontados como centrais: Mohamed Hussein Mourad, conhecido como “Primo” ou “João”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco.
Os investigadores descrevem o esquema como uma “engenharia de camadas”, construída para confundir. Empresas eram abertas e fechadas rapidamente, transferidas para laranjas ou familiares de lideranças do PCC, e renomeadas com marcas semelhantes. O objetivo era simples: criar uma cortina de fumaça para que a origem do dinheiro se tornasse irreconhecível.

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