Há quem diga que ignorância é falta de informação. O ditado popular “o pior cego é aquele que não quer ver” vai além dessa ideia e aponta para algo mais incômodo. Nem toda cegueira é involuntária. Muitas vezes, não ver é uma escolha.
Em um mundo hiperconectado, onde dados, denúncias e imagens circulam o tempo todo, a ausência de informação já não explica tudo. O que cresce é outro fenômeno: a recusa consciente em enxergar aquilo que ameaça certezas, privilégios ou zonas de conforto. Ver passa a exigir posicionamento. E posicionar-se tem custo.
Esse ditado resiste porque toca em uma verdade difícil de admitir. É mais confortável negar do que confrontar. É mais fácil desacreditar uma injustiça do que assumir responsabilidade diante dela. Assim, a cegueira deixa de ser limitação e se transforma em estratégia.
Na política, ela aparece quando fatos são relativizados, evidências são tratadas como opinião e a realidade é moldada ao gosto do espectador. Nas relações sociais, surge quando preconceitos são ignorados em nome da convivência pacífica. No cotidiano, se manifesta quando o sofrimento do outro é tratado como exagero ou problema individual.
Não querer ver também é uma forma de se preservar. Ao não enxergar, evita-se o desconforto moral, a necessidade de agir ou a perda de uma narrativa conveniente. O preço, no entanto, raramente é pago por quem fecha os olhos. Ele recai sobre quem continua invisível.
Redefinir esse ditado é reconhecer que a cegueira voluntária sustenta desigualdades. Não se trata de acusar quem não sabe, mas de questionar quem sabe e escolhe ignorar. Em tempos de excessos de informação, enxergar se tornou um ato político.
No fim, talvez o pior cego não seja quem não vê, mas quem se acostumou a não se importar com o que está diante dos olhos.

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