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Segunda-feira, 04 de Maio de 2026
Evento religioso na Capital Paulista aborda o enfrentamento ao racismo pela ótica da Teologia Cristã

Especial

Evento religioso na Capital Paulista aborda o enfrentamento ao racismo pela ótica da Teologia Cristã

Com base em dados sociais e referências da Bíblia, palestra discute a postura da Igreja diante da desigualdade racial.

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Mesmo diante do percentual de que 55,5% da população brasileira se autodeclara negra, o preconceito não se intimida, muito menos se enfraquece. O Censo de 2024 também evidenciou o nível de sua continuidade. Em 2024, foram registrados 18,2 mil casos de injúria racial no Brasil e outros 18.923 casos de racismo, tornando parte da realidade de tantos cidadãos um âmbito visível.

Nessa mesma realidade, em locais que variam das capitais às periferias, o Censo também aponta dados que chamam a atenção sobre outra parcela da sociedade que cada vez mais se estabiliza: os evangélicos. Estes saltaram 5,2 pontos percentuais nos registros realizados na última década, passando de 21,6% para 26,9% da população.

Com esse crescimento, adentraram as esferas sociais comuns desde a fundação do país e, portanto, foram expostos às suas dificuldades. Estas advindas da lacuna deixada pelo Estado. Atenderam as pessoas e as variadas feridas de suas vivências, que iam desde o enfraquecimento de núcleos familiares até lidar com a violência trazida por casos de vícios. E, conforme sua adaptação a isso, também tiveram de estar “cara a cara” com as diferenças no cotidiano devido à cor de suas peles.

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Na resiliência daqueles que são mirados pelo preconceito racial e, ao mesmo tempo, carregam a Bíblia no meio de seus serviços voluntários, percebe-se também união. A dor os chama e os alcança. Faz com que trabalhadores comuns e fiéis fervorosos partilhem da rejeição e negligência que emergem do racismo estrutural. No meio de acontecimentos frequentes e suas consequências que alcançam até a alma, a Igreja Evangélica Brasileira percebe: é preciso não só observância, mas ação.

Com essa proposta, a Igreja Batista do Povo, na Vila Mariana, na capital paulista, promoveu a palestra “O Reino de Deus em Preto e Branco”, utilizando a Teologia como ponto de partida para o debate sobre o racismo. O pastor Samuel Silva, responsável pela comunidade, aponta como a fé que persiste no país não só pode, como também deve ser parte do enfrentamento aos ataques raciais:

“Dentro da Bíblia Sagrada, especialmente no livro de Atos, no Novo Testamento, vemos a união entre povos distintos. A comunidade retratada, a judaica, antes separada dos chamados ‘gentios’, ou seja, aqueles que não partilhavam do mesmo estilo de vida, é instruída por Deus a abraçá-los, a ponto de se tornarem um só grupo. Assim se compreende a inclusão que Deus ensina. Há uma desconstrução do comportamento de outrora. Há o início de uma nova comunidade. Como é retratado mais à frente, em Efésios 2:14, que nos diz que ‘de todos os povos Ele fez um’. Ou seja, por meio d’Ele não há mais nenhuma diferenciação.”

“Primeiramente, observamos que o Antigo Testamento se resume em dois mandamentos: ‘Amarás a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.’ E, em Levítico 19:34, há a ordem de acolhimento ao estrangeiro como se fosse alguém natural da terra. Nisso, não subsiste a ideia de superioridade racial. Não existe a ideia de que um branco possa ser considerado melhor que um negro, mas sim de que são todos seres humanos. Todos merecem respeito e dignidade, pois foram feitos à imagem e semelhança do Criador. Mas também há um outro aspecto que podemos ver: o de ideologias que segregam. Toda ideologia social e política que traz separação deve ser combatida. Como neste ano, por exemplo, a temática debatida em abril sobre o chamado ‘racismo reverso’. Isto não significa que o branco deva ser reprimido. Pois que tipo de sociedade vamos construir com isso? Com que dignidade?”

O evento, por meio de uma leitura de mundo que vai desde o Materialismo Histórico-Dialético, de Karl Marx e Friedrich Engels, ao Movimento VUCA — sigla em inglês que retrata Volatility (volatilidade), Uncertainty (incerteza), Complexity (complexidade) e Ambiguity (ambiguidade) — abordou as mudanças rápidas e imprevisíveis decorridas desde então e o pensamento que está por trás da distinção entre indivíduos.

Como a História mostra, em casos como os relacionados aos denominados “dhimmis”, grupos dentro do contexto islâmico que eram classificados de forma diferenciada, aplicaram-se pensamentos de distinção religiosa que, em diferentes épocas e contextos, resultaram em perseguições e discriminações, inclusive contra o povo judeu. Estruturas sociais assim perpetuaram desigualdades, gerando um efeito dominó que alcançou outros segmentos da sociedade, inclusive até os nossos dias.

Quando rememorada a tensão entre os povos de Israel e da Palestina, a resposta advinda com base nos princípios cristãos foi assertiva: “Jesus estaria unindo judeus e gentios — referência usada pela Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, para os povos que não seguiam o Judaísmo — como Ele fez no passado. Pois o Evangelho é isso: reconciliar mundos opostos. Ele encontrou aqueles que estavam em contexto de marginalização, tal como na história da mulher samaritana”, rememora o pastor.

Assim, a reação da Igreja Evangélica e seu comportamento consequente foram direcionados de forma pacífica, mas não menos confrontadora. Baseada em uma intelectualidade que une o exame das Escrituras Sagradas com a observação e rejeição daquilo que interfere no espaço de ser e viver do próximo, instrui-se para a construção de uma comunidade religiosa alheia à separação que vem dos preconceitos e também desconectada da postura que retribui esse ódio. Colocando todos em um mesmo patamar. Entendendo a dor de forma equilibrada, já que, naturalmente, ela materializa o desequilíbrio na vida de qualquer indivíduo.

Uma das inspirações para esse direcionamento foi, além de Martin Luther King, a obra “O Século do Pentecostalismo” — nome dado ao movimento protestante originado na Rua Azusa, em Los Angeles, Califórnia, EUA, no início do século XX, liderado pelo pastor afro-americano William J. Seymour — e o trabalho realizado por William Booth, fundador do “Exército da Salvação”, movimento cristão que começou em 1865, em Londres, Inglaterra, visando levar ajuda social para a recuperação completa da dignidade de vidas. O qual tinha como lema “Os Três S’s”, representando “Sopa, sabão e salvação”, exemplificando como chegavam até as pessoas, o que faziam por elas e qual mensagem propagavam.

Com o atendimento nas favelas de Londres, que se estendeu a outras localidades do país e do mundo, William Booth e o Exército da Salvação foram pilares para uma virada de chave. O enfrentamento cristão, aquele que se colocaria contra a posição de violência até então recebida por meio da desigualdade, seria, sim, eficaz. Pois seria organizado, firme e pautado em valores que transcendem o tempo e as barreiras socioculturais. A ideia não apenas saiu do papel de forma eficaz, como perdurou da mesma forma, servindo como inspiração não somente para o entendimento do que o próximo enfrenta junto ao cristão, mas para a ponte que leva ambos a resistirem, por partilharem, além da humanidade, a vulnerabilidade diante dos moldes da sociedade e acharem modos de sobreviver e ressoar possibilidade para muitos outros.

Sem fortalecer o racismo, sem aceitá-lo e nem nivelar a violência como parte da rotina, mas sim materializando o amor ensinado por meio do Livro Sagrado. Dessa maneira, a ONG ABCP — Associação Beneficente & Comunitária do Povo — também localizada na Vila Mariana, abre suas portas para moradores de rua e enfrenta, como com um abraço, a dificuldade de quem lida com a junção da desigualdade e do racismo, sempre presentes, sempre persistentes. Com um trabalho ligado às Casas Terapêuticas, entidades que realizam o acolhimento e encaminhamento para aplicação de tratamento e ressocialização de pessoas em situação de rua.

Com uma abordagem sensível e estratégica para ajudar, a ONG ABCP tem conseguido ser um ponto de esperança por meio da união de diversas áreas, como explica a coordenadora do projeto e abordagem, Renata Barbante:

“Sempre recebemos todos no processo de abordagem. Porém, nosso trabalho de acolhimento abrange homens negros, que estatisticamente são a maioria da população em situação de rua. Por uma questão de segurança, fazemos o encaminhamento para as Casas Terapêuticas com esse público especificamente. Identificamos a necessidade por meio do nosso ‘Sopão’, que ocorre na Sé, na região central da cidade, às sextas-feiras. Quando nos aproximamos deles e realizamos esse trabalho, conseguimos trazê-los para perto. Tendo em vista que a realidade do vício é comum, realizamos sempre esse direcionamento. Já que a ABCP tem a proposta não apenas de levar comida, mas de fato ter esse cuidado com cada um deles.”

“E, por trabalhar sem distinção, seja de cor, seja de credo, vamos enfrentar o preconceito. Para nós, sempre alguém será bem-vindo. Acreditamos nisso e lidamos com isso, e assim funcionamos aqui na ABCP.”

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Portal Futuro Livre
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Barbara Siqueira

Publicado por:

Barbara Siqueira

Barbara Siqueira é produtora de artigos especiais, voltados ao pensamento crítico. Atua em áreas da sociologia e filosofia, além de se interessar por leitura.

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