A palavra “mayday”, imortalizada em filmes, séries e transmissões de rádio, é reconhecida no mundo todo como sinônimo de pedido urgente de socorro, especialmente em situações de risco aéreo ou marítimo. O que poucos sabem é que ela não é uma palavra inglesa, embora esteja presente na comunicação formal de países que priorizam, quase obsessivamente, o uso do inglês. A ironia? Os próprios Estados Unidos, conhecidos por sua resistência histórica ao uso de termos estrangeiros, adotaram sem hesitar uma palavra de origem francesa para salvar vidas.
“Mayday” vem da expressão francesa “m’aidez”, que significa “ajude-me”. Foi adaptada nos anos 1920 por um oficial britânico, Frederick Mockford, para facilitar a comunicação entre Londres e Paris, quando o francês era uma das línguas dominantes da aviação. Assim nasceu um termo universal, e francês, utilizado até hoje por pilotos americanos, ingleses, canadenses, brasileiros.
Se até os norte-americanos, conhecidos por protegerem seu idioma com fervor, aceitaram “mayday” como termo técnico internacional, por que nós, brasileiros, seguimos o caminho oposto? Aqui, há uma tendência quase automática de desvalorizar o português em nome de palavras estrangeiras, mesmo que existam equivalentes perfeitamente claros e eficientes na nossa língua.
No mundo corporativo, é quase regra falar em feedback, deadline, briefing, job, budget, insight — como se retorno, prazo, resumo, trabalho, orçamento e ideia fossem palavras menos profissionais ou “menos globais”. Não é só uma questão linguística, é simbólica: o estrangeirismo virou sinônimo de status, e o português virou “linguagem informal”.
E o efeito não para por aí. Em muitos lugares, um “cake” custa mais caro que um “bolo”, mesmo sendo o mesmo produto. Uma consultoria de branding cobra mais que uma assessoria de marca. Um delivery parece mais moderno que uma entrega. Não importa o conteúdo, a embalagem em inglês vende mais, cobra mais e “vale” mais. É o glamour da língua estrangeira ditando o valor das coisas, até das mais simples.
É claro que a língua evolui, e que termos estrangeiros podem ser úteis, necessários ou até inevitáveis em alguns contextos. O problema é quando isso se torna regra, e o português passa a ser visto como um entrave, e não como um recurso.
Enquanto o “mayday” francês salva vidas na língua inglesa, o português segue tentando sobreviver na terra onde deveria reinar soberano, mas é tratado, muitas vezes, como algo menor. E talvez esse também seja um pedido de socorro. Só que ninguém parece ouvir.
Comentários: