O futebol é justo? Em muitas partidas, um time joga melhor, está mais entrosado, cria as melhores chances e executa boas jogadas, mas o que define o resultado é o gol. O adversário, mesmo com menor volume de jogo, marca e vence.
As eleições são justas? Em muitos pleitos, um candidato faz uma campanha mais organizada, apresenta propostas mais consistentes e adota uma postura mais ética, mas quem possui maior popularidade ou alcance junto ao eleitorado acaba sendo eleito.
Nesse paralelo entre futebol e eleição, o que prevalece é o resultado. No esporte, vencer significa somar três pontos. Na política, vencer significa ser eleito. A justiça, nesses casos, não está na avaliação subjetiva de quem foi melhor, mas na verificação objetiva das regras. O gol valeu? Houve impedimento? O voto foi livre? Não houve compra de votos, fraude ou abuso de poder?
Cumpridas as regras, o resultado é considerado legítimo, ainda que não agrade a todos.
Tanto no futebol quanto no processo eleitoral, é comum confundir justiça com merecimento. O futebol não premia desempenho estético ou domínio de jogo, mas eficiência. A eleição não escolhe necessariamente o melhor projeto, mas o candidato que conseguiu convencer mais eleitores.
Um time pode ter mais posse de bola, mais finalizações e melhor organização tática e ainda assim perder. Da mesma forma, um candidato pode apresentar propostas mais técnicas e detalhadas e não vencer a eleição. Esses sistemas não foram criados para medir mérito absoluto, mas para produzir um vencedor dentro de regras previamente estabelecidas.
O futebol é um jogo regulado. A eleição é um processo representativo.
Se futebol e eleições funcionassem exclusivamente com base na meritocracia, os resultados seriam diferentes. No futebol, haveria menos surpresas e maior previsibilidade. Clubes com melhor gestão e mais recursos dominariam por longos períodos, enquanto talentos sem estrutura teriam menos oportunidades. O jogo ganharia eficiência, mas perderia diversidade e imprevisibilidade, características marcantes do futebol brasileiro.
Na política, uma lógica estritamente meritocrática daria mais espaço a gestores técnicos e reduziria a influência do carisma e da popularidade. Projetos de longo prazo poderiam ser mais valorizados. No entanto, surgiria um problema central: quem definiria os critérios de mérito? A ausência de participação popular direta poderia afastar a política da sociedade.
A injustiça não está em perder jogando melhor ou em fazer uma campanha mais qualificada e não vencer. A injustiça ocorre quando as regras são violadas. No futebol, quando há gol ilegal, manipulação de resultados ou interferência externa. Na política, quando há compra de votos, fraude, abuso de poder econômico ou desinformação deliberada.
Fora dessas situações, o resultado pode ser questionado do ponto de vista moral ou político, mas permanece legítimo dentro do sistema.
Futebol e eleições não garantem que o melhor vença. Eles garantem que alguém vença de acordo com as regras. No Brasil, tanto no esporte quanto na política, o desafio está em compreender essa diferença. Não se trata apenas de aceitar derrotas, mas de fortalecer regras, fiscalização e transparência para que o resultado, mesmo contestado, seja fruto de um jogo limpo.
Em ambos os campos, justiça não é sinônimo de vitória. Justiça é a garantia de que o processo ocorreu dentro das regras.
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