Felca, influenciador conhecido pelo humor ácido no YouTube e pela briga ferrenha contra divulgadores de casas de aposta, voltou a viralizar. Desta vez, com um tema sensível e urgente: o crescimento de perfis que sexualizam crianças e incentivam a pedofilia.
Em um vídeo de quase uma hora, ele expõe usuários, decifra códigos usados por pedófilos em comentários de páginas com menores de idade e toca na ferida de forma visceral — algo que, para uma mãe como eu, é doloroso assistir. Mas necessário.
Entre “morangos do amor”, dancinhas virais e bobbie goods, é impossível não notar a facilidade com que as massas são conduzidas para conteúdos fúteis. O fenômeno dos desenhos caríssimos — com canetinhas igualmente caras, que nada mais são que marca-texto e papel impresso — revela uma sociedade exausta, que busca em qualquer distração um descanso mental. O que poderia ser uma brincadeira inocente em família virou mais uma tendência vazia em busca da aprovação social.
O sucesso dos bobbie goods (e suas variações, como pobre goods) foi surpreendente, mas também previsível. A procura por brinquedos analógicos cresceu 14% no mundo, segundo a plataforma Circana, numa tentativa de resgatar uma infância mais lúdica, longe do excesso de tecnologia. Muitos adultos também aderiram, em busca de mais presença no tempo real, longe dos algoritmos que engolem horas de vida.
Mas, como quase tudo na internet, até a boa intenção virou engajamento. O bobbie goods, que parecia afastar crianças das telas, acabou expondo-as ainda mais, com perfis dedicados ao tema, milhares de seguidores e um reforço perigoso da lógica de validação online.
Estamos perdendo a capacidade de viver momentos sem transformá-los em conteúdo. Crianças já não tomam banho de chuva, não sentem dor no rosto de tanto rir, não fazem castelinhos de lama nem brincam com blocos de montar. A segurança de quem deveria ser nosso futuro está em risco. No lugar de joelhos ralados, temos o descontrole sobre o que chega às nossas casas enquanto estamos distraídos no celular.
Entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio entre jovens cresceu, em média, 6% ao ano. No mesmo período, as notificações de autolesões entre 10 e 24 anos aumentaram 29% ao ano, segundo estudos da Fiocruz divulgados em 2024. Junto da comparação constante com vidas falsas nas redes, crimes de exploração infantil circulam livremente em plataformas que não temem punição — e muito menos sentem culpa.
Sou mãe de uma menina de 2 anos, que adora ver Merida montando seu cavalo e Rapunzel jogando seus cabelos. Tento manter os contos de fadas e 101 Dálmatas como favoritos na nossa casa. Faço força para que ela tenha roupas sujas de tinta, unhas de barro e saiba onde mora a verdadeira infância.
Aqui em casa, sonhamos com um quintal verde, bichos correndo e pouco espaço para trends e algoritmos. É difícil — também vivemos da internet e estamos expostos às mesmas ilusões. Mas insistimos. Porque a vida corre, as modas passam e as crianças absorvem o que aprendem nos braços dos pais.
Seguimos juntos na tentativa desse texto se tornar um dia obsoleto. Amém.
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